Só 12% da Geração Z entende de dinheiro e a IA não está ajudando quem não entende

Um levantamento recente da Allianz Research, divisão de pesquisa da Allianz Trade, ouviu mais de 8 mil pessoas em oito países e chegou a um retrato pouco confortável: apenas 12% da Geração Z apresenta alto nível de conhecimento financeiro, contra 22% entre os Baby Boomers. O recorte por gênero é ainda mais desigual, entre as mulheres da Geração Z, esse índice cai para apenas 10%.

O dado chama atenção porque é justamente essa geração que mais recorre à tecnologia para decidir sobre dinheiro. Cerca de 77% dos jovens da Geração Z usam ferramentas de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana, e 26% já citam a IA como uma das principais fontes de orientação financeira, quase o dobro da média registrada entre os entrevistados.

Confiança não é o mesmo que conhecimento
O ponto mais delicado do estudo é justamente nesse descompasso. Embora os jovens que usam IA para obter conselhos financeiros se sintam mais preparados, o conhecimento efetivamente medido pelos pesquisadores é praticamente o mesmo observado na população geral. Em outras palavras, a ferramenta pode aumentar a sensação de segurança, mas não necessariamente a competência para tomar decisões financeiras.

Os próprios pesquisadores da Allianz resumem o risco de forma direta. Para quem já tem uma base financeira sólida, a IA pode complementar a orientação de um profissional. Já para quem não tem esse repertório, a tecnologia pode reforçar decisões equivocadas, porque a pessoa não necessariamente possui conhecimento suficiente para avaliar criticamente a resposta que recebeu.

Mas esse não é um problema exclusivo de outros países. No Brasil, dados do Banco Central mostram que a faixa de 15 a 29 anos já concentra altos índices de inadimplência do país, superando outras faixas etárias. E o fenômeno tem uma explicação que soa familiar: os jovens cresceram cercados de conteúdo sobre finanças em redes sociais, influenciadores e aplicativos, mas ter acesso à informação não significa, necessariamente, saber transformá-la em uma decisão financeira adequada. Renda limitada, consumo impulsivo e facilidade de acesso ao crédito ajudam a ampliar essa distância entre informação e comportamento.

O longo prazo fica para depois
Esse tipo de lacuna costuma empurrar o planejamento de longo prazo para mais tarde. Uma pesquisa da CNDL em parceria com o SPC Brasil aponta que 75% dos jovens da Geração Z não se preparam de forma alguma para a aposentadoria. Entre os poucos que se preparam, a estratégia mais comum ainda é a caderneta de poupança, um instrumento de baixo rendimento, que pode cumprir um papel em uma reserva de emergência, mas tende a ser pouco eficiente como única estratégia para a formação de patrimônio ao longo de décadas.

Portanto, o desafio não é desconfiar da tecnologia, mas compreender seus limites. A IA poder ampliar o acesso à informação, mas não substitui a formação do julgamento nem a capacidade de questionar, comparar e refletir  antes de tomar uma decisão. Nesse sentido, a educação financeira é o que permite desenvolver o senso crítico necessário para avaliar informações, questionar recomendações e entender se a resposta recebida de um aplicativo, de um vídeo ou de um amigo faz sentido para a própria realidade.

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